domingo, 22 de Novembro de 2009

Sundae de domingo

Nada de cortesias amorosas. Só expressões sensuais! Acima de tudo, desejo pelo concreto. Por que não adotar as vias mais simples? Nada que não vier dos sentidos não rola.

Qual o passo prático? Num forte calor, um sundae conquista o amor. Parte morango, parte baunilha. No alto, uma cerejinha. Calda... Dois tubetes. Quem não é simpático ao oferecê-lo? Quem sendo bom não se torna melhor ainda? Quando os meios são bem escolhidos, nenhum amor é difícil.

Sundae. Ai, sundae. Um, outro... Que alegria. Pago-os com bastante amor.

Querido, o ideal manifestado é o mais feliz. Uma boa formação é cultivada na experiência. Nada do que digo foi cochichado pelo meu travesseiro. Como me manifestar mais, se antes já fui tão completa? Por que só avanço em enigmas? São os meios tortuosos para reviver sozinha uma tarde que já morreu. Ao menos tudo decorre da mesma matéria, cuja finalidade antes conquistada agora se renova numa sorridente esperança.

sexta-feira, 20 de Novembro de 2009

Momento para morrer

Há dias bons para morrer? Talvez. É que parece haver dias em que tudo já basta. Não um "basta" cansado. Nos dias tardonhos, a teimosia é a virtude. Força é viver ainda mais uma vez. Ninguém deseja um dia mínimo. Quando a tristeza escorre pelo tempo cinza, por contraste somos sugados pela mais bela vida. Sempre é assim. A não ser que por esteticismo e irreverência se perca a vida. O "basta" verdadeiro é uma relativa plenitude. Um instante que não parece superável. Como se disséssemos aos quatro anjos que sustentam os cantos do mundo: "Não movam mais nada, por favor! Queremos aproveitar para sempre esse instante."

Idolatria? Talvez. Por que não breves ensaios para a grande morte?

Morrer no tempo é permanecer num instante inesgotável. A diferença entre homens e bichinhos é que estes não participam da morte. Quando morrem, é um fim completo. O homem, ele vai e volta. Ele toma a morte como se comesse um fruto. Sente prazer. Onde uns acabam, outros frutificam. A vida é mais suportável quando se sucedem breves mortes dessa natureza.

Qual a cadeia que une esses instantes? O que mantém tudo de pé? Mesmo espiando todos os dias o grande mundo pela janela, só tenho pressentimentos. A verdade é que esses momentos não provém de nada muito sublime. Nem há ocasião. Pode ser ao passar numa esquina calhorda. Pode ser ao andar devagar, numa rua esquecida pela agência de luz. Quem sabe se ao pisar fora de um supermercado, num dia cujo azul é um absurdo total? Às vezes, a graça atua pelo último homem imaginável! Ou ao olhar de modo insolente um planeta, que adora ignorar a intimidade alheia. Ou em cada minuto triunfal em que nos perdemos da vida, quando tudo é encarado como se fosse pela última vez.

sábado, 24 de Outubro de 2009

Morro porque não morro

Fizemos amizade quando ele disse: "Querida, que tal passearmos pelo jardim depois que morrermos?" Quando ele deu uns dois passinhos mais além, perguntei se ainda hoje nos encontraríamos. Ele: "Vou na frente, para preparar o nosso encontro."

Desde uns tempos bem velhinhos, acho que essa conversa tem se repetido. Não pretendo ter sido a única a ouvi-la, nem que escuto melhor. Mas não dá para negar uma pontinha de orgulho. Às vezes, acho que isso vem de mim. Outra, que vem para mim. Na verdade, são os dois.

Quando enfim me encontro, antes encontro a mim mesma com ele. Uma delícia ver sempre o novo. Eu sou eu e ele. Se ele não está comigo, não me salvo.

Agora, apenas me fixo num céu (quase escuro, em que dançam umas aves negras) que me aparece quadrilátero. Aqui, a música no rádio terminou; quase vou pegar um sorvete. A roupa lá no banheiro precisa ser lavada. Mas ainda com os sentidos prestigiados, meu coração quer se arrumar para o encontro de logo mais. Depois da morte.

sexta-feira, 23 de Outubro de 2009

Ao jovem sonhador (de uma crazy bitch)

Não seja fingido. Meus olhos não ficam mais atraentes, quando pintados com insolência? Quando me apronto com discreto fingimento, você não me acha mais amável? Quando suspiro grandezas bobas, você não me olha mais firme?

Se você se sente atraído por mim, vou dizer uma coisa. Não tem nada melhor que o hiato entre seus olhos e eu. Se preciso do contato de uns, de você isso já basta. Posso dormir sempre satisfeita.

Sacer esto

Antes de o céu descer como águia flamejante, eu repousava às margens do plácido espelho d'agua. Eu não me acomodava solitária naquelas areias geladas. Mas como se assim estivesse, prossegui parada. Quando os alegres ventos também vieram compor a minha própria vida, o céu proclamou uma interdição: "Sacer esto". É verdade que algumas flechas de luz buscavam amores aleatórios, aqui e ali. Mesmo assim, uma pétala de minha própria vida era arrancada de mim. Ela foi consagrada às água. A superfície a devorou. Fui posta á revelia.

Ali eu estava, mal integrada. Por teimosia, permaneci. (Tentativa tola de guardar o que já se perdeu.) O que dizer? Toda a minha arte era breve. O horizonte era absurdo. Meu corpo ensaiou alguns espamos. Muita dor provém do que escapa à língua.

Só justificativas abstratas aplacam a dor momentânea. Mas sempre que elas giram, outra vez o céu diz: "Sacer esto". Feneço, pétala em pétala.

sábado, 29 de Agosto de 2009

Paixões de uma cativa

Minha Constantinopla foi arrasada. Terminei para sempre cativa. Respirei fogo. Me vi a fazer o que jamais faria. Mesmo o iníquo descansa em nossa natureza. A necessidade adormece o sensível.

Tantos passos eu lancei, tantas vezes me lamentei. Quando o mundo fechava seus olhos, eu seduzia meus prantos. Eu sussurrava: "Querida Constantinopla, onde estão os anjos terríveis? Muitas línguas de fogo guardavam os seus portões. O que houve com os muros ciclópicos? Eram tão brancos que podiam cegar. Deixei de ver as tramas douradas do mundo. Você adormece tranqüila. Seus amigos foram derramados nos vales. Se você se perdeu, vou me perder também."

Eu queria desabar, eu não queria parar de me mover. Tão esgotada eu estava, se parasse morreria. Fui a lembrança arruinada, de mim mesma e de outros mais.

Hoje, fico solitária em segredo, cercada de gente não santa.

Me pedem: "Eleve mais um cântico para nós, seus parentes forçados. Transmute sua bruta tristeza em fina alegria." Derramo na copa uma arte fugidia, celebrando: "Queridos irmãos, cantemos ao tempo, que tanto nos traga. Se ele nos toma em goles, vamos nos embriagar também!" Todos bebem satisfeitos (eu também) esse mistério que me consome. Cada gole me esquenta. Me embriago do que não sou. Vários sorrisos selvagens me tocam. Outros são quase uma dor. São paixões dolorosas de uma cativa.

quarta-feira, 19 de Agosto de 2009

Impenitência

Amigo, muitos pecados já cometi nessa vida. Sigo cometendo outros mais. Não é uma justiça mal pesada que mal me inclina. Nem é que a necessidade ilumina o indevido. Tampouco é pela carência simples de filosofia.

Dói o meu seio. Me apalpo. Há um tumor enorme. Não me surpreendo. Quase me alegro.

Tanto faço, pouco me arrependo, tranqüila me explico. O que invoca o veredicto da natureza pacifica a si mesmo.

Plena de justificações no pulmão, corro leve à falsa medida. Sigo dando saltos, aqui e ali. Qual o sentido dos abismos da vida, se o fim não tivesse nada de profundo? Desabar da linha do justo confere à queda uma estranha proeza. Às vezes, nem mesmo aparece o abismo. Diante de um espelho de mistério, o mundo sensível é deslocado. Mesmo quando um dedo pesado invade o nervo, a agonia manifesta é a coroação da vida.

Mas tropeço nos meus próprios fingimentos. A dor que exprimo é metade chantagem. Se apenas caminho às margens da impenitência, é que o freqüente permanece estranho.

quarta-feira, 12 de Agosto de 2009

Momento

O tempo desce. Minha paixão também.

Deslizo um toque. Alguém estranha: "Suas mãos são tão frias..." Só basta um sopro cálido. Uma brisa suave, que entra pela minha boca. Que provoca as brasas no meu peito.

As palavras estão prestes a me desrespeitar. Só desejam uma dança, cujo poder é bárbaro.

Sigo submissa o ritmo imposto. Posso sentir esse meu sangue vivo, que arrasta todo entendimento. Ah, sigo de atração em atração, até me ver nos olhos alheios. Pareço mais interessante no outro que em mim mesma.

Ignoro a corrente estreita da noite. Nem posso seguir as baladas geladas. No alto, a imensa Lua e o jardim do céu nos cobrem.

segunda-feira, 10 de Agosto de 2009

Círculo mundano

I Tara

Nessa minha vida absurda, o pecado é a minha melhor companhia. Bem antes de surgir qualquer fogo no céu, ele já me emprestava calor. Bem antes de eu devorar a atmosfera do mundo, ele já me nutria. Mesmo descalço, ele sai para me atender, onde eu estiver. Espontâneo, ele me serve uma copa de ouro, transbordante de caprichos. Não há como comparar a presteza do pecado com a imobilidade ideal da virtude.

Mas nesse amor louco, não sou levada inteira. Certas partes resistem. Tudo me dói. Zonza, me sento. Descanso minha cabeça na minha mão. Fecho os meus olhos, abro o meu pulmão. Sufocada por idéias exóticas, tento decifrar as palpitações do meu peito.

II Dispersão

Quando todas as coisas descem, é difícil não descer também.

Não sei quantos pedacinhos me formam. Não entendo muito bem de que natureza sou feita. Mas um pouco mais além, residem os objetos exteriores nada alheios a mim. Cada um deles me rouba um pouquinho. Sou pilhada enquanto há tempo.

Quando o dia se torna oblíquo, parte da minha vida naufraga no horizonte. Logo surge uma estátua viva de mim mesma, esculpida com o que foi derramado de mim mesma tantas vezes. Obedeço submissa às vontades de pedra. Após a volta derradeira, até ela sai carregada.

Diante dessas influências dispersantes tão formidáveis, como posso me manter estável de verdade? A menos que estabilidade seja pilhagem e submissão.

III Anel de ferro

Outro dia tropecei no baixo mundo, debaixo de signos visíveis e frios. Quando o filho de Hipérion veio cobrar os direitos dele, eu só tinha a oferecer então meu próprio sacrifício. Ao menos eu não estava só. Alguma companhia participava comigo do ritual.

Sobreviventes de um naufrágio noturno, errávamos de rua em rua. Mesmo sem forças nem razão, evitávamos os postos avançados da decadência. Alguns sonhos grotescos insistiam em não querer morrer, mesmo quando já deviam ter sido exorcizados.

As primeiras luzes são geladas, como a justiça destituída de misericórdia. Tremi. Não só de frio, mas de medo. Um certo pavor distante empalidecia devagar meus lábios. Sacerdotisa impiedosa, eu tinha participado do sacrifício do tempo delicado. Dragões vorazes foram honrados. Toda a minha furiosa paz noturna foi obtida com o sangue inocente. Só que tudo tinha sido inútil. Outra vez o efeito tinha cessado. Outra vez acabei me imolando para mim mesma.

E as partes desgarradas de mim mesma clamaram por justiça. Clamaram, e foram ouvidas. Tremi. Meu coração era esmagado pela mão poderosa do império misterioso. Eu devolvia cada alegria com altos juros de sofrimento. Onde quer que alegrias efêmeras estivessem gravadas em mim, ali minhas dores me destroçavam.

Nada seria definitivo. O tempo renasceria outra vez. Com ele, minhas outras quedas. A cadeia permaneceria cerrada até a derradeira volta.

quarta-feira, 1 de Julho de 2009

Participação da vida

Estranha vida, onde você está? quem te guarda? Parece que em mim você falta.

Doce canto passadiço, elogio da experiência principal, estímulo primeiro do mundo, as mais santas palavras. São tantos caquinhos que não consigo perceber qual é a ordem radical.

A vida cumprimenta tudo de passagem. Mal consigo tocar num fio de cabelo dessa fortuna veloz.

Só se procura aquilo de que já se participa. Se suspiro tanto pela vida, é vida que me informa!

Querida vida, para onde você me guia? a quem você me destina? Parece que em mim falta um rumo.

segunda-feira, 29 de Junho de 2009

Perspectiva moderna

I

Algo que chamam de amor gira o sol. Gira o mundo. Aqui, nessa ópera dos mendigos, cada grão de areia é agitado sem destino. O mundo é todo causado por algo sem propósito. Onde o caos absurdo se faz império, nada pode existir natureza. Filosofar é ocioso. Só existem aproximações (não, esbarrões). A vida, vida é um suposto método espasmódico e doloroso.

A vida é uma impostura. Ela consiste em chorar muita dor (as pontas do mundo machucam). É preciso responder a ela com sorriso claudicante. Desconcerto. Por que o conflito? Somos recrutas numa disputa desmedida. Entrincheirados, não podemos, não queremos pensar. Só se vive se mal se pensa. A virtude está numa idéia: "Bem aventurados os que nada esperam, porque não serão decepcionados."

Que é mundo? Acúmulo dos resíduos das fricções das enormes esferas. Alguns até são animados. Há nobreza até no pó.

Deslizamos devagar, para o fundo do abismo. Caídos, precários, sozinhos, dispersos, no escuro, mudos para sempre. No alto (como se existissem locais fixos!), o sol volta a girar, aqui o mundo gira, movidos por algo que chamam de amor.

II

Sempre que o filho de Hipérion renasce, ele toca a trombeta para nos despertar do sono. (Tudo vive em comunhão, as pessoas entre si e com o mundo.) Ainda misturados num estranho intervalo, despertamos confusos. Já se vive ou se morre? Veremos.

De dia se preparam os vícios, de noite serão consumidos.

Só há pecado onde houver luz. A noite é o manto que esconde os feios detalhes de que somos formados. Ela nos dopa. Brincamos (de preferência a dois) de possibilidades que nunca se farão carne. Ocasião de parodiarmos os ensinamentos mais santos. Nada que dissermos será cumprido. Breves irresponsabilidades trarão longas amarguras. Tudo farsa, tudo ciranda.

Os primeiros tempos da luz são os mais gelados. Gelados como a presença da morte.

Geme a aurora, rosada, face alva esbofeteada. A aurora traz sempre um crime diário. Geme a natureza, gememos nós. Tudo vive em comunhão.

domingo, 28 de Junho de 2009

Metereologia sacra

Disse um oráculo moderno: "A previsão é de um céu nublado, com pancadas de chuva no início da manhã." Linguagem técnica. O oráculo quis dizer é que o céu se ajoelhará contrito, cheio de emoção, ao se confessar antes da missa. Ele próprio desfila em penitência diante de Deus. Mas também se comoverá por nós. O adamantino absurdo do mundo fará o próprio céu chorar e ranger os dentes. Toda a Criação ora por nós.