quarta-feira, 27 de Janeiro de 2010

Céu moderno

Enquanto uma música evocava o paraíso da alma em meu quarto, o céu lá fora cada vez mais se assemelhava ao barro. As tendências do mundo teriam mudado? Como demorei para notar! Talvez eu estivesse na mão da vontade inabarcável. Ou será que às portas dos meus trinta anos eu já sinto dificuldade de ler as páginas do evangelho deste mundo?

Olho para mim mesma, no espelho. Mudei pouco. O ar frio ainda me arrepia. A primeira natureza não me comoveu tanto. Tenho sido mais empurrada pelo artifício do hábito. Ou será do erro sistemático? Ambos, talvez. Quase não há atritos a me parar! Se por acaso um gênio livre me guia, por que me aporrinhar com escleroses prematuras?

Também o céu moderno me causa felizes arrepios. Não corro para liberar minha contentação, que agora se torna escultura? O céu moderno inspira! Mesmo sendo igual ao que é, ele dá sempre uma nova luz. A vida repele com horror todo esquema burocrático. Ainda agora, flashs preparam lá no alto a dança feérica. Seres gigantes e disformes dançam cheios de vida, às custas do sossego das criaturas frágeis. Vejo-os no álbum animado celeste. Daqui do centro da minha vida, que por acidente agora é minha casa.


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Que dizer dos traços enérgicos, rumo à estabilidade do belo? Homero já demonstrou que uma alma gentil é mais importante que uma visão aguda. Importa demais a idade? As águias breves jamais desfrutaram da nossa aurora rósea, a surgir matutina. Como são parte do cenário do mundo, elas não o aproveitam desde fora. Assim é com toda a alma que não for gentil. Está condenada à triste e desesperançada imanência. Serão um tênue sussurro, como os espíritos que Ulisses uma vez viu.

quarta-feira, 13 de Janeiro de 2010

Xênia

Oh! Eu me esforçava para comover as estrelas. Cheia da mais pura contrição, eu me negava, me negava, me negava. Espírito torto! Corpo traidor! Alma porca! Cada pontinho do meu corpo era um apocalipse. Imagens de serpentes e touros malvados devastando tudo me assaltavam. As reações do mundo pareciam sempre ameaçadoras. Ah, quanta fraqueza! Como sou vítima, vítima até de mim mesma! Em mim, meu mundo desaba. Minha sensibilidade ardia, no atrito com o mundo. Eu me perdia, ignorante. Como conservar a minha bondade?

Então uma voz gritou, assim: "MAS QUE SACO! VOCÊ FAZ AS CAGADAS E DEPOIS FICA CHORANDO, POSANDO DE 'OPRIMIDINHA'. TENHA VERGONHA, VÁ SE CONFESSAR, TRABALHE COMO *GENTE* E NÃO ENCHA MAIS O SACO, SUA MALA. Ô PORRA!"

Oh... Se bem que assim acabo amando de verdade. Sim, sério...

segunda-feira, 11 de Janeiro de 2010

Alteração

Ah, esse enorme dia. Às vezes, nem enxergo direito o que me afeta. Não só a minha pele sofre. Meu coração crepita, e minhas palavras são quase todas um alívio torpe. O processo me dói. Por quê? Não sei, mas desconfio que nem quero saber. Fica mais fácil sorrir.

Amigo poeta, você já disse ser assaltado pelo oculto Deus-Rio de sangue. Dormi muito mal impressionada com a sua voz. Por que só você teria o monopólio do divino feridor? Minha vida não é tão diferente da sua. Hoje mesmo acordei alterada; meu peito parecia um estranho. Eu queria mesmo saber por que você insiste em riscar traços plácidos em minha face. É irritante a sua insistência em me atravessar com seu olhar, no lugar de deslizar no meu. Como é frustrante ser tomada por um estado!

Olho os seus esforços, sinto a sua vontade agitada de encontrar paz (em meu peito?), mas não sei se recuo um pouquinho. Se você soubesse como me agrada sentir cheiro de sangue, não sei se me amaria mais. Apelo a uma pedagogia qualquer, girando meu coração bem aos pouquinhos. Se eu tivesse certeza dos bons resultados sobre você, eu despencaria feito a tormenta sobre a terra. Como é admirável o poder do trovão que abala até as pedras! Mas é bom fulminar alguém? Não sei. Às vezes, tenho medo dos meus amores tão homicidas. Só que às vezes é prova de vida apelar à morte.

Eu me equilibro em todos os pontos. Exceto um. Meu segredo. Fonte de minha excentricidade. Dentro do conjunto, passo despercebida. Ao olhar mais amigo, talvez eu seja vista em contínuo abalo.

Má ação

A noite lutava pela vida, e reuni os meus sob uma fraca luz, e disse: "Matemo-lo. Se o fizermos morder a terra, seremos maiores. Ele é maior que nós todos. Mas uma terrível mão escura talvez o fira de morte. Vamos! A morte está conosco."

A noite cedeu o império ao dia. Mal dormi. A proximidade do sangue alheio me agitava. Só me levantei quando meu coração clamou por maldade. Cheia de hipocrisia, me larguei a dores e hesitações. Toda a maldade é mais livre se se prende a uma cadeia de necessidades. Bárbara, sorri para a insídia; minhas últimas interdições foram lavadas.

quarta-feira, 6 de Janeiro de 2010

Coração impuro

Pequei.

Pequei por cobiçar uma vida alheia.

Aquela era uma vida que não podia mais me dizer respeito. Mas a cobicei. Solitária. Com vagar. Com prazer. Eu a percebia, enquanto minha fantasia realçava a mim mesma.

Com perfeita calma, eu quis que tudo fosse indiferenciado. Se por um momento a tarde fosse como a madrugada... Com sorriso pérfido, conspirei com o meu coração: "Ah! Queria só uma chance! Como não seria?"

Se os instantes selvagens forem a minha natureza, nutro simpatia ao ver obras antigas e delicadas despedaçadas. Minha dança só é mais viva se pelo menos uma só coisa fenecer por perto.

Mas então eu já estava na rua. De forma estranha, uma vaga sensação de dor me estimulava a perambular. Como eu gostaria de chamar um transeunte, só para rirmos juntos das nossas dores! Sim, existem dores maiores que a minha. Várias. Mas como a minha me dói!

Náufraga das minhas próprias fantasias, eu prosseguia empurrada pelas dores.

Nem em casa eu era mais livre. Com perfeita consciência, olhei até que ponto um pequeno homicídio não seria agradável para mim. Olhava o céu comovido, aquecida pelo pecado.

Peco. Sinto prazer homicida. Se minha vida fosse mais realçada, eu não hesitaria muito em fazer perder a vida alheia que mais me agradasse. Nem me preocuparia com a queda de belos vasos (não são meus). Não, não há bondade verdadeira no meu coração.

segunda-feira, 28 de Dezembro de 2009

Tosca juventude

Pois muitos pensam que nós jovens vivemos selvagens, cheios de derradeiro ímpeto. Não! Estamos no pináculo da sinagoga de vidro. O mundo jaz lá embaixo, em pó. Se parecemos coabitar as nuvens, qual a razão de sermos pedestres da rusticidade? Nossos amores (e o santo tempo) prosseguem lentos, desejando a placidez do arco do céu.

Desejamos comover as próprias estrelas sempiternas. Desejamos delas o óleo da consagração. Desejamos ser como os deuses-reis. Sim, como os deuses-reis. Tanto desejo só se aplaca com sacrifícios, cuja periodicidade é assunto de cada estação. Viver no alto consiste em carnificina, sublime. A imperfeição advém de algum rival, que cobiça o nosso bem. Em nossa esfera, não há consórcio com o acidental. Correspondemos íntegros apenas a nós mesmos. Somente nos afeta o que trazemos em nós. O resto, o resto jaz descartado no vazio, coração do mundo.

Mas um dia, despencamos lá do alto. A contrariedade e a experiência implodem a sinagoga de vidro. O que restará dos deuses-reis, modelos de tanto sacrifício? O Filho de Hipérion caduca; só nos resta nos derramarmos também, pelas selvas noturnas. Na fúria das potências da noite, parecemos evolar. Clamam a verdade o áspero e o violento. Só parece haver vida no tumulto da feira.

Vida distendida ao acaso, impulso libérrimo pelo próprio impulso. Um rodopio do alto ao abismo, que a reclama. Com ouvidos fechados e olhar petulante, ela cava com as próprias unhas o momento derradeiro (loucura de quem foge de combates com anjos inexistentes). Se ela tivesse mesmo o mundo em conta, se uma vez só consultasse os sentidos, perceberia a grande fera de cobre, prestes a lhe destroçar. No fim, talvez ela não se incomodasse. Talvez se sentisse abençoada.

domingo, 22 de Novembro de 2009

Sundae de domingo

Nada de cortesias amorosas. Só expressões sensuais! Acima de tudo, desejo pelo concreto. Por que não adotar as vias mais simples? Nada que não vier dos sentidos não rola.

Qual o passo prático? Num forte calor, um sundae conquista o amor. Parte morango, parte baunilha. No alto, uma cerejinha. Calda... Dois tubetes. Quem não é simpático ao oferecê-lo? Quem sendo bom não se torna melhor ainda? Quando os meios são bem escolhidos, nenhum amor é difícil.

Sundae. Ai, sundae. Um, outro... Que alegria. Pago-os com bastante amor.

Querido, o ideal manifestado é o mais feliz. Uma boa formação é cultivada na experiência. Nada do que digo foi cochichado pelo meu travesseiro. Como me manifestar mais, se antes já fui tão completa? Por que só avanço em enigmas? São os meios tortuosos para reviver sozinha uma tarde que já morreu. Ao menos tudo decorre da mesma matéria, cuja finalidade antes conquistada agora se renova numa sorridente esperança.

sexta-feira, 20 de Novembro de 2009

Momento para morrer

Há dias bons para morrer? Talvez. É que parece haver dias em que tudo já basta. Não um "basta" cansado. Nos dias tardonhos, a teimosia é a virtude. Força é viver ainda mais uma vez. Ninguém deseja um dia mínimo. Quando a tristeza escorre pelo tempo cinza, por contraste somos sugados pela mais bela vida. Sempre é assim. A não ser que por esteticismo e irreverência se perca a vida. O "basta" verdadeiro é uma relativa plenitude. Um instante que não parece superável. Como se disséssemos aos quatro anjos que sustentam os cantos do mundo: "Não movam mais nada, por favor! Queremos aproveitar para sempre esse instante."

Idolatria? Talvez. Por que não breves ensaios para a grande morte?

Morrer no tempo é permanecer num instante inesgotável. A diferença entre homens e bichinhos é que estes não participam da morte. Quando morrem, é um fim completo. O homem, ele vai e volta. Ele toma a morte como se comesse um fruto. Sente prazer. Onde uns acabam, outros frutificam. A vida é mais suportável quando se sucedem breves mortes dessa natureza.

Qual a cadeia que une esses instantes? O que mantém tudo de pé? Mesmo espiando todos os dias o grande mundo pela janela, só tenho pressentimentos. A verdade é que esses momentos não provém de nada muito sublime. Nem há ocasião. Pode ser ao passar numa esquina calhorda. Pode ser ao andar devagar, numa rua esquecida pela agência de luz. Quem sabe se ao pisar fora de um supermercado, num dia cujo azul é um absurdo total? Às vezes, a graça atua pelo último homem imaginável! Ou ao olhar de modo insolente um planeta, que adora ignorar a intimidade alheia. Ou em cada minuto triunfal em que nos perdemos da vida, quando tudo é encarado como se fosse pela última vez.

sábado, 24 de Outubro de 2009

Morro porque não morro

Fizemos amizade quando ele disse: "Querida, que tal passearmos pelo jardim depois que morrermos?" Quando ele deu uns dois passinhos mais além, perguntei se ainda hoje nos encontraríamos. Ele: "Vou na frente, para preparar o nosso encontro."

Desde uns tempos bem velhinhos, acho que essa conversa tem se repetido. Não pretendo ter sido a única a ouvi-la, nem que escuto melhor. Mas não dá para negar uma pontinha de orgulho. Às vezes, acho que isso vem de mim. Outra, que vem para mim. Na verdade, são os dois.

Quando enfim me encontro, antes encontro a mim mesma com ele. Uma delícia ver sempre o novo. Eu sou eu e ele. Se ele não está comigo, não me salvo.

Agora, apenas me fixo num céu (quase escuro, em que dançam umas aves negras) que me aparece quadrilátero. Aqui, a música no rádio terminou; quase vou pegar um sorvete. A roupa lá no banheiro precisa ser lavada. Mas ainda com os sentidos prestigiados, meu coração quer se arrumar para o encontro de logo mais. Depois da morte.

sexta-feira, 23 de Outubro de 2009

Ao jovem sonhador (de uma crazy bitch)

Não seja fingido. Meus olhos não ficam mais atraentes, quando pintados com insolência? Quando me apronto com discreto fingimento, você não me acha mais amável? Quando suspiro grandezas bobas, você não me olha mais firme?

Se você se sente atraído por mim, vou dizer uma coisa. Não tem nada melhor que o hiato entre seus olhos e eu. Se preciso do contato de uns, de você isso já basta. Posso dormir sempre satisfeita.

Sacer esto

Antes de o céu descer como águia flamejante, eu repousava às margens do plácido espelho d'agua. Eu não me acomodava solitária naquelas areias geladas. Mas como se assim estivesse, prossegui parada. Quando os alegres ventos também vieram compor a minha própria vida, o céu proclamou uma interdição: "Sacer esto". É verdade que algumas flechas de luz buscavam amores aleatórios, aqui e ali. Mesmo assim, uma pétala de minha própria vida era arrancada de mim. Ela foi consagrada às água. A superfície a devorou. Fui posta á revelia.

Ali eu estava, mal integrada. Por teimosia, permaneci. (Tentativa tola de guardar o que já se perdeu.) O que dizer? Toda a minha arte era breve. O horizonte era absurdo. Meu corpo ensaiou alguns espamos. Muita dor provém do que escapa à língua.

Só justificativas abstratas aplacam a dor momentânea. Mas sempre que elas giram, outra vez o céu diz: "Sacer esto". Feneço, pétala em pétala.

sábado, 29 de Agosto de 2009

Paixões de uma cativa

Minha Constantinopla foi arrasada. Terminei para sempre cativa. Respirei fogo. Me vi a fazer o que jamais faria. Mesmo o iníquo descansa em nossa natureza. A necessidade adormece o sensível.

Tantos passos eu lancei, tantas vezes me lamentei. Quando o mundo fechava seus olhos, eu seduzia meus prantos. Eu sussurrava: "Querida Constantinopla, onde estão os anjos terríveis? Muitas línguas de fogo guardavam os seus portões. O que houve com os muros ciclópicos? Eram tão brancos que podiam cegar. Deixei de ver as tramas douradas do mundo. Você adormece tranqüila. Seus amigos foram derramados nos vales. Se você se perdeu, vou me perder também."

Eu queria desabar, eu não queria parar de me mover. Tão esgotada eu estava, se parasse morreria. Fui a lembrança arruinada, de mim mesma e de outros mais.

Hoje, fico solitária em segredo, cercada de gente não santa.

Me pedem: "Eleve mais um cântico para nós, seus parentes forçados. Transmute sua bruta tristeza em fina alegria." Derramo na copa uma arte fugidia, celebrando: "Queridos irmãos, cantemos ao tempo, que tanto nos traga. Se ele nos toma em goles, vamos nos embriagar também!" Todos bebem satisfeitos (eu também) esse mistério que me consome. Cada gole me esquenta. Me embriago do que não sou. Vários sorrisos selvagens me tocam. Outros são quase uma dor. São paixões dolorosas de uma cativa.